UM GESTO DE GRATIDÃO - Depoimento - Brig.José Vicente de Faria Lima - E.E.Mauá - 1965
A seguir vou prestar um depoimento autêntico e verdadeiro que ocorreu comigo e com o querido Prefeito José Vicente de Faria Lima em 1965, portanto 44 anos atrás.
Nesta ocasião prestei exame vestibular para Engenharia e fui aprovado na Escola de Engenharia Mauá para início de meu curso em 1965, Mauá que tinha sede em São Paulo, no Parque Dom Pedro II e estava inaugurando seu campus na Estrada das Lágrimas em São Caetano do Sul.
A sede da E.E.Mauá era na cidade de São Paulo, no Parque Dom Pedro II.
Fui aprovado no vestibular, mas não podia pagar a Escola que era muito cara para minha condição econômica e social e meu querido Pai, nunca me esqueço, me disse, “meu filho, não quero que você perca a oportunidade de ingressar na Escola de Engenharia” e, portanto me conseguiu sei lá como, uma quantia suficiente para pagar a matrícula da Faculdade, dizendo-me claramente que após meu ingresso na Faculdade teria que me “virar” sozinho para poder cursar a Escola de Engenharia, que era o grande sonho de minha vida aos 21 anos de idade.
Sempre trabalhei para pagar meus estudos e consegui ingressar numa Faculdade de ótima reputação, mas muito cara para minhas condições.
Agradeci o apoio de meu pai, um imigrante libanês e minha querida mãe que vive até hoje com seus 95 anos de vida, a quem muito amo e a venero com todas as minhas forças.
Pois bem, só me restava continuar trabalhando como “mascate” e também como professor de Português, Física, Química e Matemática para poder suportar meus estudos e poder me manter.
Um dia conversando com colegas, soube que a Prefeitura de São Paulo tinha um programa de estudos para estudantes carentes que atendia as escolas FEI – Faculdade de Engenharia Industrial da Rua São Joaquim na Liberdade e a Escola de Engenharia Mackenzie, a mais tradicional Escola particular naquela época.
Eu me perguntei, porque a Mauá, escola cara e de alunos de classe social e econômica mais abastada, não poderia também fazer parte deste programa para suportar os alunos pobres e carentes?
Um dia me decidi a procurar o Sr.Prefeito de São Paulo para conversar com ele sobre esse assunto.
As inscrições para o Programa de Bolsas de Estudos da PMSP tinham se encerrado e, portanto teria que haver uma ordem superior para dar oportunidade aos alunos da Mauá.
Não tive dúvidas, um dia dirigi-me ao Parque do Ibirapuera, sede da PMSP naquela época e fui sozinho, direto ao Gabinete do Prefeito.
Fui atendido por uma secretária que me pediu desculpas, mas o Prefeito, homem de muitos compromissos não poderia me atender. Não desisti. Perguntei quem era o superior dela.
Ela me disse: é o secretário do Prefeito, Dr.Mamanna que poderia conversar comigo.
Pedi a ela me levar ao Dr.Mamanna e fui levado a uma sala imensa de recepção com muitas cadeiras em volta e o Dr.Mamanna, muito gentilmente me pediu desculpas, mas o Prefeito não poderia me receber em audiência, pois estava numa reunião muito importante da CMTC e de maneira alguma teria tempo para conversar comigo.
Foi aí que lhe perguntei: por favor, Dr.Mamanna, posso ficar sentado aqui e esperar pelo Sr.Prefeito?
Ele me disse, claro, aqui é um lugar público e é seu direito aguardar, mas sentado, sem importunar as pessoas que aqui se encontram.
Num determinado momento o Sr.Prefeito Faria Lima adentra a sala de Recepção da Secretaria e olhando para mim, um jovem tímido de 21 anos que ali se encontrava, me pergunta: “Jóvem, o que você faz aí”???
Respondi imediatamente, Sr.Prefeito, preciso conversar com o Senhor. O Sr.me dá essa oportunidade?
Ele imediatamente respondeu: “Claro meu jovem, aguarde que o receberei tão logo termine a reunião com a CMTC”.
Ora, fiquei muito emocionado e me mantive quieto, sentado até que ele pessoalmente adentrou novamente a sala e me chamou para a reunião.
A reunião com a CMTC continuava e ele me apresentou às pessoas que ali estavam, diretores e colaboradores seus e principalmente ao Dr.Leonardo Mônaco, um senhor gordo, que era o Presidente da CMTC que mais tarde se tornou um grande amigo e muito me ensinou.
Depois das apresentações me perguntou: “Jóvem, o que você faz aqui? Do que você precisa?”
Aí então, com todas as minhas forças lhe respondi: Sr.Prefeito, venho aqui por um motivo simples. Somos um grupo de jovens dispostos a vencer as batalhas desta vida, não temos condições econômicas e financeiras para arcar com o custo de nossos estudos, mas somos sabedores que a PMSP tem um programa de bolsas de estudos para a FEI e o Mackenzie e porque os estudantes pobres da Mauá também não podem participar deste programa???
Ele chamou o Dr.Mamanna e lhe perguntou o que estava ocorrendo. O Dr.Mamanna respondeu que esse programa era exclusivo da FEI e do Mackenzie e as inscrições já estavam encerradas, portanto a Mauá não teria mais condições de participar do programa.
Ele disse, “Mamanna, a Mauá também tem sede em São Paulo e portanto está apta a participar do Programa de bolsas da PMSP, tanto quanto a FEI e o Mackenzie. Portanto, exijo e autorizo imediatamente a abertura das inscrições para os alunos carentes da Mauá pelo prazo dos próximos 30 (trinta) dias a partir de amanhã”.
Esse ato do Prefeito foi cumprido integralmente e os alunos da Mauá tiveram acesso a pleitear bolsas de estudo da Prefeitura Municipal de São Paulo por vários anos, até que a sede da Mauá fosse transferida para São Caetano do Sul, onde se encontra hoje o campus da Universidade.
Um gesto nobre que nunca esqueci em minha vida e me ajudou muito a me tornar Engenheiro e homem honrado, que sempre foi o grande sonho de minha vida.
Como testemunha disso cito o colega Ronaldo Kohlman, um estudo também carente de Monte Mor e o Chico Maroni que, arrimo de família, sempre trabalhou para o sustento de sua família, que acompanharam nesse período e que fomos proporcionados com bolsa e/ou meia-bolsa para concluir nosso curso de Engenharia na Mauá.
O Brigadeiro José Vicente de Faria Lima foi um homem notável, humano, estrategista e grande administrador que projetou o futuro da Cidade de São Paulo, pensando muito nos jovens, adultos e senhores de nossos tempos.
Uma pessoa inesquecível a que todos nós temos que homenagear nos seus 100 (cem) anos – um século!!!
Sempre que tinha oportunidade dirigia-me no período da manhã em frente ao seu Prédio de Apartamento onde residia na Rua Batataes, Jardim Paulista, onde também se encontravam Roberto Carlos, Erasmo Carlos, para agradecer o bem que ele fez a nós jóvens alunos da Mauá.
Neste ano completo 40 (quarenta) anos de formado na E.E,Mauá e gostaria de agradecer ao meu amado, venerado e grande Prefeito, pela oportunidade de me tornar Engenheiro graças ao seu nobre e honrado gesto.
Muito obrigado meu Grande Prefeito José Vicente de Faria Lima!!!
Que Deus lhe tenha reservado um lugar muito especial e merecido!!!
Farid Murad
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