Doação de órgãos: um ato de amor e coragem

Doação de órgãos: um ato de amor e coragem

 

Alfredo José França Dib doou um rim à sua prima e hoje em dia ambos podem levar uma vida normal e feliz.

 

O processo de doação de órgãos no Brasil, mesmo depois de regulamentado, ainda tem de superar alguns obstáculos, como preconceitos e desinformação. Milhares de vidas poderiam ser salvas se um maior número de pessoas manifestasse a vontade de doar órgãos e tecidos após a morte.

 

Já em vida, tal atitude requer muita coragem e amor por parte do doador. E esse é o caso de Alfredo José França Dib, 37 anos, formado em Administração de Empresas pela Escola de Administração Mauá, em 2002. Ele doou um de seus rins à sua prima, em janeiro deste ano.

 

Por que você teve essa iniciativa?

 

A questão da doação nunca chegou a representar, propriamente, um paradigma para mim em função da forma como enxergo a vida em contraponto à morte (dois assuntos tão cheios de tabu na nossa cultura).

 

Mas a motivação é muito mais emocional. Tive vontade de "tornar mais fácil" a vida dessa prima e poder tê-la por perto por mais tempo. Resumindo: um ato de amor!

 

O que mudou na sua vida depois do transplante?

 

Absolutamente nada. Minha vida é completamente normal, sem nenhuma limitação. Sou piloto privado de avião, mergulhador autônomo e nunca senti nada na prática de qualquer esporte ou sequer na alimentação – como e bebo tudo que costumava antes da cirurgia. A propósito, comemorei o sucesso da doação em uma churrascaria de São Paulo, saindo direto do hospital para lá.

 

E a qualidade de vida da minha prima também é excelente. Apesar de ela não ter tido escolha, na condição de transplantada, tem de respeitar os procedimentos, prazos, medicamentos etc. como qualquer transplantado, até a integração completa do órgão no organismo dela. Mas sua vida é totalmente normal, sadia. A única restrição é que ela é proibida de cavalgar. Eu posso.

 

Você já havia pensado no assunto anteriormente?

 

Eu nunca havia pensado nesse assunto, mas, com um histórico de doenças degenerativas na minha família, tinha o hábito de pensar no quão efêmera é a vida e o que cada um de nós pode fazer para "aliviar" o infortúnio de pessoas que aprendemos a amar desde crianças.

 

Já tinha intenção de ser doador um dia?

 

Não, eu nunca havia parado para pensar em doar um pedaço de mim para alguém. Porém, quando me deparei com essa situação, surpreendi a muitas pessoas próximas com a tranqüilidade e propriedade da decisão.

 

Quando você soube que tinha sido aceito como doador, procurou se informar mais sobre o assunto?

 

Sim, procurei informações mais precisas sobre a doação renal. É natural que tenhamos curiosidade e até um certo receio de passar por uma experiência definitiva. Contatei alguns médicos com quem já havia trabalhado e conversei aberta e francamente com o clínico nefrologista que tratava minha prima, sobre as mudanças que minha vida poderia sofrer.

 

Você recebeu apoio de familiares e pessoas mais próximas? Houve alguma resistência por parte delas?

 

É engraçado. Os do contra eram muito mais explícitos do que os que eram a favor. Acho que nem mesmo eles se perguntaram sobre o paradoxo a que estavam submetidos – ao me “preservarem” estavam “tornando” a vida dela mais curta e penosa. O número de abstenções de opiniões foi maior do que os que manifestaram apoio ou crítica.

 

Você repetiria o ato se pudesse?

 

A vida, às vezes, nos provoca algumas contradições. Tenho verdadeira paúra por agulhas e, por isso, nunca doei sangue. Mas decidi conscientemente, e também sou doador de órgãos e tecidos.

 

Por que as pessoas ainda têm essa “barreira” em relação à doação de órgãos?

 

Isso é muito pessoal, mas percebi que a principal resistência é cultural. É impressionante o grau de desinformação a respeito do assunto. Mas o pior é o “conhecimento tradicional popular associado”. É difícil tratar desse assunto em um país onde o processo de sepultamento de pessoas começa a se tornar um problema ambiental (poucos admitem a cremação - uma atitude definitiva), onde o corpo ainda é uma propriedade divina.

 

Campanha A Vida com Vida

 

No início do ano passado, a Associação Doe Vida lançou, com o apoio da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, a campanha A Vida com Vida, que incentiva a doação de órgãos e tecidos. No site, você poderá ter mais informações sobre o assunto, além de tirar suas dúvidas e conhecer outras histórias emocionantes. Para saber mais, acesse o site www.doevida.org.br ou ligue para (19) 3802-2009.

 

Mais um final feliz

 

Salvador Paiva é um vencedor na luta por um transplante de coração e mostra que é possível ganhar essa batalha.

 

Salvador Paiva, engenheiro mecânico graduado pelo Instituto Mauá de Tecnologia em 1968, é outro exemplo de que ainda há esperança para os brasileiros quando o assunto é doação de órgãos. Em 1998, Salvador ingressou na longa fila de espera para um transplante de coração, mas a cirurgia só aconteceu em janeiro de 2004, após 7 meses de angustiante espera. Ele permaneceu internado por três meses e meio e fez mais de 700 exames nesse período, depois de ficar 27 horas em centros cirúrgicos. O transplante em si levou 13 horas, mas as demais foram gastas em quatro outras intervenções, decorrentes de processos de rejeição, infecção e outras complicações advindas da operação do transplante.

 

Para Salvador, submeter-se a um transplante de coração, hoje, no Brasil, é uma verdadeira loteria, já que quase metade dos candidatos morre antes de chegar a sua vez. Para compartilhar essa história de sucesso e levar um pouco de esperança para aqueles que se encontram na mesma situação, ele lançou o livro Coração Salvador - Breve História de um Transplantado, um relato das dificuldades e das alegrias de um homem à beira da morte, que se vê obrigado a se submeter a um procedimento de alto risco, para ter a chance de continuar vivendo. E esse foi só o primeiro passo do projeto, que tem como objetivo incentivar a doação de órgãos no Brasil. Salvador também dá palestras sobre o tema em empresas, escolas, clubes e associações, na tentativa de conquistar mais adeptos a esse ato de amor. Para saber um pouco mais sobre o projeto, acesse www.coracaosalvador.com.br.


 

  

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